terça-feira, 14 de abril de 2009

Voltar atrás no tempo

Os últimos dias têm sido intensos em termos de notícias e declarações. Todos os dias há novas acusações, investigações e rumores para complicar ainda mais a situação. Os candidatos presidenciais começam a aparecer… Mas felizmente a Guiné-Bissau é muito mais do que isso e antes de publicar fotografias e assuntos mais actuais aproveito para deixar algumas imagens tiradas ainda no tempo dos Generais.

No fim de Fevereiro e ainda na ressaca da primeira visita oficial recebi três outras ilustres figuras. Houve tempo para Bissau e muitos outros lugares. Para trás ficaram muitas histórias e novos conhecimentos. Saltinho fica marcado pelo encontro memorável com esse grande homem, Quinhamel é muito mais do que apenas as ostras, Bafatá faz-nos voltar atrás no tempo… e Queré e Caravela ficam para escrever um dia destes.








Acredito que tenham gostado e para quem foi a primeira vez em África espero que tenha ficado um gosto especial por esta terra. Obrigado pela visita.

A Páscoa foi em Varela e vou tentar actualizar rapidamente.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Essência do vazio e a coruja

Sem grande possibilidade de comentários fica a descrição do jornal Público dos últimos acontecimentos:

Prosseguem os casos de violência.

Antigo primeiro-ministro guineense foi agredido e um advogado torturado.

"O antigo primeiro-ministro guineense Francisco José Fadul, actual presidente do Tribunal de Contas, foi hoje violentamente agredido, tal como a mulher, e encontra-se hospitalizado. Isto um dia depois de um dos mais destacados advogados do país, Pedro Infanda, ter sido torturado.

A Amnistia Internacional (AI) acusou elementos das poderosas Forças Armadas, dominadas pela etnia balanta, de terem espancado o investigador e professor universitário Fadul, que na segunda-feira dera uma conferência de imprensa a incitar o Governo de Carlos Gomes Júnior a responsabilizar os militares por casos de corrupção e outros crimes.

Nessa conferência, o primeiro-ministro, líder do PAIGC, fora criticado e acusado de se estar a servir dos militares para se consolidar no poder, colocando até figuras suas amigas em postos fundamentais do Estado.

Os homens que hoje de madrugada entraram em casa do ex-primeiro-ministro, de onde levaram "ouro, um computador e telemóveis", segundo disse ao PÚBLICO fonte guineense, avisaram-no de que "andava a falar de mais".

Precisamente por os militares não terem gostado de ouvir algumas das palavras do presidente do Tribunal de Contas é que ele agora se encontra nos cuidados intensivos do Hospital Central Simão Mendes, em Bissau, o mesmo estabelecimento onde também está Infanda, detido arbitrariamente por alguns soldados, na semana passada, e depois espancado durante quatro dias, conforme relato da AI. O director do hospital, Agostinho Semedo, explicou à AFP que a vida de Fadul não corre perigo, mas que sofreu diversos hematomas na cabeça e no tórax.

Infanda, advogado de um antigo chefe do Estado-Maior da Armada, José Américo Bubo Natchuto, actualmente refugiado na Gâmbia, dera uma conferência de imprensa em nome do seu constituinte e considerara irregular a recente designação do capitão-de-mar-e-guerra José Zamora Induta, como novo chefe do Estado-Maior General."

Os militares guineenses estão a recorrer a medidas extremas contra qualquer oposição ou crítica, instigando o medo em qualquer pessoa que considere expressar livremente os seus pontos de vista quanto ao que eles fazem", comentou num comunicado o director do programa africano da AI.”

(…)

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1372094&idCanal=11

Cenas dos próximos capitulos?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Regresso ao Passado

Não custou regressar. Para trás ficaram uns bons dias de férias e tudo o que isso implica. No caixote vieram iogurtes, gelados e queijo.

A situação militar-politico-social embora bastante mais calma está longe da normalidade. A tensão no ar é evidente e todas as conversas acabam por cair nos mesmos temas. Em cada esquina se comentam as mortes violentas dos dois Generais, a nomeação do novo Chefe de Estado Maior e o futuro do país. Todos têm opiniões sobre os autores dos atentados e sobre o envolvimento dos cartéis da droga nos acontecimentos.

Na procura de uma normalização da vida democrática aguarda-se pela marcação do dia para as eleições presidenciais. Uns falam já em Junho outros só em Novembro depois da época das chuvas. Discute-se a possibilidade de serem desrespeitadas as normas constitucionais que obrigam a eleições no prazo de 60 dias após a nomeação do Presidente interino uma vez que segundo as autoridades nacionais não há condições para as mesmas se realizarem. A Comunidade Internacional discorda e diz que prestará todo o apoio financeiro necessário.

Por outro lado as últimas decisões tomadas pelas chefias militares têm deixado muita gente apreensiva. A mais recente e mediática foi a detenção por militares do advogado do anterior Chefe de Estado Maior da Marinha, o Contra-Almirante Bubo Na Tchuto. As últimas informações da comunicação social dizem que se encontra no Hospital a receber tratamento…

Apesar de tudo a vida contínua. Aliás sempre assim foi. Um desfecho trágico para os envolvidos não era coisa que não passasse pela cabeça de muitos. A dúvida estava mais em saber quando seria do que em discutir se aconteceria mesmo. Podia ter sido uns meses antes ou mesmo daqui a alguns mas sabia-se que seria. Os grandes prejudicados são sempre os mesmos: a Guiné-Bissau e o seu povo.

Mas nem tudo está perdido. As más notícias felizmente costumam vir acompanhadas de outras bem melhores. Para quem perguntava e enviou presentes fica a notícia. No dia 13 de Março nasceu o filho da Sara Rosa. Foi chegar e vê-lo com 10 dias deitado no meu sofá. Tem um belo nome! Recebeu as roupas que a APC enviou e o porta-bebés que será motivo de muitas invejas.

As temperaturas altas estão de volta, e facilmente os termómetros marcam 34 ou 35 graus. Há muito trabalho mas também há mais fim de semanas na piscina, jogos de ténis ou almoços nas esplanadas. Inaugurámos o novo Edifício Sede da Missão da União Europeia e já podemos jogar squash (o 1º campo não oficial da Guiné-Bissau). Organizam-se mais fim de semanas nas ilhas e já não é tão fácil conseguir lugar.

Depois de algum tempo de ausência tentarei nos próximos dias actualizar a escrita e publicar alguns textos e fotografias mais antigas. As férias e não só acabaram por não me deixar muito tempo para o blog.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Golpes de catana

Artigo publicado no Diário de Notícias:

"O Presidente Nino Vieira foi assassinado com grande brutalidade pelos militares leais ao chefe do Estado-Maior Tagmé Na Waié, que fora por sua vez morto horas antes num atentado à bomba. Nino foi morto à catanada, sabe o DN. Sofreu golpes violentíssimos que o desfiguraram e já tinha profundas fracturas no crânio quando lhe deram o tiro de misericórdia.

Segundo fontes contactadas pelo DN em Bissau, a morte dos dois homens-fortes da Guiné teve na origem a velha rivalidade entre Tagmé e Nino, um ódio que remontava aos anos 80. O chefe do Estado-Maior sabia da iminência de um atentado contra a sua vida e deu instruções aos militares balantas que lhe eram fiéis: "Eu morro de manhã e o Nino morre à noite", terá dito o general, segundo garantiu ao DN um antigo ministro guineense."

Tagmé teria conhecimento de que chegara uma bomba", garantiu esta fonte, que sublinhou a sofisticação do atentado contra o general. O profissionalismo do ataque (que foi inédito na Guiné e transcende as capacidades das forças armadas locais) sugere a ajuda das redes de narcotráfico, que são controladas por sul-americanos.

As fontes guineenses atribuem a Nino Vieira o atentado contra Tagmé Na Waié. A explicação é a seguinte: Nino controlava a presidência e parte do poder civil, mas teve uma importante derrota nas eleições legislativas de Novembro, que o PAIGC liderado por Carlos Gomes Júnior ganhou com maioria absoluta, elegendo 67 dos 100 deputados. O partido apoiado por Nino Vieira, o PRID, que era liderado pelo antigo primeiro-ministro Aristides Pereira, conseguiu apenas 3 eleitos.

O poder militar é aquele que verdadeiramente conta na Guiné-Bissau e o Presidente tinha aí uma séria desvantagem, pois contava apenas com alguns apoios na marinha. Logo após o atentado contra Tagmé, Nino Vieira convocou o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior para uma reunião onde lhe seria imposto um novo chefe de Estado-maior da facção ninista. Mas o presidente terá cometido um erro de precipitação, ao convocar o primeiro-ministro escassos minutos depois do atentado, traindo o seu conhecimento do mesmo: Carlos Gomes recusou-se a comparecer. Também se afirma que Nino esperava a protecção da marinha e que esta não se concretizou.

Neste ponto dos relatos sobre os acontecimentos da madrugada de domingo surge um mistério: por que razão Nino Vieira não tentou fugir mais cedo? O presidente teve muitas horas para escapar, mas não o fez.

O actual poder da Guiné-Bissau está nas mãos dos militares fiéis a Tagmé Na Waié, uma nova geração de oficiais. O novo homem-forte será Zamora Induta, mas o poder militar não está clarificado. De qualquer forma, a situação parece estável.

O poder civil encontra-se nas mãos do PAIGC. O Presidente interino, Raimundo Pereira, exercia o cargo de presidente do Parlamento. De 52 anos, é um jurista formado em Portugal.

A sequência da situação política na Guiné-Bissau tem inúmeras incógnitas. Para alguns "é o fim de uma Era" dominada pelo impiedoso Nino Vieira. Mas no horizonte há problemas. O maior deles parece ser o narcotráfico e a corrupção. Também não se pode esquecer a questão da balantização das forças armadas, facto que as outras etnias observam com extrema preocupação.

A presidência de Raimundo Pereira também poderá ser breve. A Constituição prevê eleições em dois meses, mas será impossível cumprir o prazo. Os outros partidos temem a hegemonia do PAIGC e quererão negociar um presidente transitório consensual."

http://dn.sapo.pt/2009/03/04/internacional/nino_morreu_a_golpes_catana.html

terça-feira, 3 de março de 2009

Viagem a casa

Obrigado a todos os que se preocuparam e me escreveram ou telefonaram. Não respondi ainda a todos mas vou tentar. Estou em Portugal. Não se tratou de uma evacuação mas apenas da coincidência de ter agora alguns dias de férias. Os primeiros depois de 6 meses consecutivos na Guiné-Bissau.

Os sentimentos estão de alguma forma divididos pois se por um lado estar de volta ao nosso país é sempre agradável, por outro lado caso estivesse por lá estaria a viver mais alguns acontecimentos históricos. Não é todos os dias que assistimos a atentados à bomba contra o Chefe de Estado Maior ou ao assassinato de um Presidente.

Esperemos que a situação em Bissau rapidamente regresse à normalidade. Um país tão pobre e que já vive com tantas dificuldades não precisa que lhe piorem ainda mais a situação. De qualquer forma brevemente estarei de regresso. Trabalho não falta.

Até já.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sementes coloridas

A chegada de visitas implica necessariamente também a chegada de encomendas. Aproveita-se sempre a boleia de quem viaja até Bissau para fazer chegar até cá aquilo que é impossível encontrar por aqui e por outro lado tentar responder aos mais diversos e variados pedidos. Felizmente há sempre boa vontade e costuma haver distribuição para todos os gostos.

Agradeço por isso a todos os que puderam e se preocuparam em fazer chegar encomendas. Não posso deixar sobretudo de agradecer os objectos comprados propositadamente nas lojas especializadas para cegos. Como podem imaginar aqui não existe qualquer possibilidade de encontrar material próprio para o ensino de invisuais e a falta que estes materiais fazem é gigante. Uma boneca braillin para os mais pequenos começarem a aprender o alfabeto ou uma bola de futebol com sinos no interior podem fazer maravilhas.

Não vou escrever outra vez sobre a escola Bengala Branca ou o lar Abelha Obreira pois facilmente podem encontrar outros textos meus mais antigos sobre as duas instituições. Deixo no entanto algumas fotografias que podem ajudar a perceber melhor a realidade local e as condições em que aprendem e vivem algumas crianças em Bissau.



Não se torna fácil explicar a uma criança cega o que é um quadrado, um triângulo ou qualquer outra forma geométrica em 3 dimensões quando apenas se tem papel para o fazer mas uma ida ao Toys R Us pode tornar tudo mais fácil. Obrigado.

Deixo ainda dois filmes que mostram bem as condições das salas de aula e a animação que uma simples visita pode trazer.



Apesar da pobreza e das dificuldades, o calor com que somos recebidos é enorme e a sensação de estar a contribuir (mesmo que pouco face às necessidades) é enriquecedora.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Santos do Benfica

Tentando dar resposta às vozes que clamam por mais informação desportiva segue uma notícia publicada esta semana no Nô Pintcha: “O avançado do Sport Benfica e Bissau, Santos da Silva, foi eleito o melhor jogador do campeonato nacional da 1ª divisão da época desportiva de 2007/2008 pela Associação dos Jogadores de Futebol da Guiné-Bissau seguido por Umaro Embaló (Caró) e Idrissa Camará (Idi), na 2ª e 3ª posição, ambos da equipa dos Balantas de Mansôa.”

Ponta Anchaca

O destino 5 estrelas da Guiné-Bissau fica a cerca de 2 horas de barco (partindo de Bissau). Quem conhece bem o país sabe que é fácil encontrar lugares fantásticos e paisagens deslumbrantes mas também sabe bem que geralmente as condições de alojamento são inversamente proporcionais…

Na ilha de Rubane excepcionalmente temos direito a tudo e portanto um dos lugares obrigatórios para os convidados. A vista é de sonho com grandes extensões de areia branca enquadradas por zonas de floresta virgem, mangais e palmeiras com sombras convidativas. Os bungalows são modernos e totalmente equipados, com quartos arejados e bem decorados. Alguns para além de uma varanda perfeita para a leitura têm mesmo um jacuzzi.



Recentemente o acampamento foi ampliado e tem agora também uma piscina. Ideal para terminar o dia e apreciar melhor ainda o panorama impressionante que nos rodeia.

A falta de acessibilidades para as ilhas faz com que estes destinos ainda sejam pouco frequentados o que nos torna ainda mais privilegiados. Temos a possibilidade de estar durante alguns dias isolados do mundo numa ilha meia deserta com apenas meia dúzia de pessoas. O sonho de muitos é para nós aqui na Guiné-Bissau realidade. Espero que as visitas tenham gostado.



Em breve espero voltar e em boa companhia. Só falta saber as datas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Dar vida sem Morrer

"Dar vida sem Morrer é o primeiro de três documentários sobre o antes e o depois da implementação de um projecto que tem como objectivo a Redução da Mortalidade Materna e Neo-natal na Guiné-Bissau, um país onde esta mortalidade é extremamente elevada, especialmente nas zonas de Oio e Gabú. Este projecto resulta de uma parceria entre a RTP e a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação.

Parte do financiamento deste projecto provém da emissão de solidariedade do programa "Dança Comigo por uma boa causa", cujos donativos oferecidos pelos espectadores da RTP (250.000 euros) reverteram para o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), organismo que irá ter a responsabilidade de coordenar o projecto no terreno. Também o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), na pessoa do Sr. Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Dr. João Gomes Cravinho fez questão de se juntar a esta causa e deu igual montante (250.000 euros).

Vão beneficiar desta verba total de 500.000 euros, dois hospitais maternidades e 31 centros de saúde, através da construção de um bloco operatório, da entrega de ambulâncias, da colocação de painéis solares, da distribuição de todo o tipo de materiais que envolvem a vida reprodutiva da mulher e o parto e, ainda, na formação de técnicos especializados nesta área.

Este primeiro documentário mostra a realidade actual de adolescentes mães (jovens aos 13 e 14 anos que estão grávidas do terceiro filho) e das condições mais que precárias em que são feitos os partos e da vulnerabilidade da vida dos bebés guineenses."

Para ver na RTP1 no dia 26 de Fevereiro às 21h00.

http://www.mne.gov.pt/mne/pt/noticias/200902170920.htm

Hospital

Quando se olha para o último Índice de Desenvolvimento Humano publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (em 2007/2008) conseguimos encontrar a Guiné-Bissau na posição 175 e ante-penúltima do ranking. Significa isto que mais pobre é bastante difícil.

Isto para dizer que apesar da enorme beleza do país e da grande simpatia e disponibilidade do povo guineense há que estar também preparado para um país que enfrenta muitas dificuldades e que têm carências que nos custam imaginar puderem existir ainda hoje. Quem visita a Guiné-Bissau tem por isso obviamente de estar preparado para ver quase tudo.

Gosto de mostrar as ilhas e todos os outros lugares fantásticos mas uma visita à Guiné-Bissau fica mais completa quando se visita também o outro lado. Ganha-se novas perspectivas o que é bom. Deve fazer parte do programa passear nas zonas mais pobres, aldeias sem nada, orfanatos ou escolas, para que a visão seja global.

Um dos lugares que talvez mais simbolize o verdadeiro estado do país é o Hospital Simão Mendes em Bissau. É o principal do país mas pode-se dizer sem falhar por muito que tem falta de quase tudo. Existe uma grande falta de meios humanos e técnicos qualificados o que leva à morte de muita gente que noutras circunstâncias nunca teria lugar. Há falta de salas de internamento, camas, gessos, aparelhos raio-x, etc. O bloco operatório por vezes não funciona pois não há possibilidade de anestesiar os doentes. As falhas de electricidade e água até recentemente eram habituais. A maioria das vezes os doentes não têm acesso aos medicamentos uma vez que estes são pagos pelos próprios. Já para não falar da falta de conhecimentos básicos de higiene ou dos problemas típicos de corrupção.




Um dia destes visitei mais uma vez o Hospital e acho que todos os que aqui estão deviam fazer. Deu para ver os bebés nas incubadoras (umas a funcionar outras não) ou também para perceber como é feita a limpeza das batas médicas e lençóis.


A situação durante a epidemia de cólera (em Junho-Novembro do ano passado) foi catastrófica mas parece que aos poucos algumas coisas vão melhorando. Entretanto muita gente vai ficando pelo caminho.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Cidade colonial

Bafatá é uma cidade admiravelmente tranquila, caracterizada por uma predominância de edifícios e casas coloniais mas que infelizmente se encontram num estado avançado de degradação. Fica numa colina do interior do país na margem do Rio Geba, a 150 km a nordeste de Bissau. Ainda hoje é considerada por alguns a segunda maior cidade da Guiné-Bissau com mais de 100.000 habitantes (estes dados nunca são de fiar uma vez que o último recenseamento da população teve lugar há 17 anos).





Aproveitando as visitas familiares (as primeiras em 9 meses…) fomos até lá. Com facilidade podemos imaginar como seria a Bafatá portuguesa. A estrutura e traça típica estão muito presentes na parte baixa da cidade. Abstraindo-nos da cidade fantasma actual e da poeira envolvente podemos voltar atrás no tempo sem dificuldade e sentir ainda a grande influência dos colonizadores.



Conseguem-se também encontrar alguns raros portugueses que depois de viverem as guerras se deixaram ficar por Bafatá e que ainda hoje têm esperança de que a cidade volte a ter força e dinâmica do passado. Vale a pena visitar o Mercado Central e principalmente a sua fachada em estilo arabesco bem como passear nas ruas e jardins que terminam no rio. Conhecer as antigas piscinas também faz parte. A visita não fica completa sem uma passagem pelo restaurante Ponto de Encontro ou pela casa Marco.


Bafatá é também a cidade natal do herói nacional, Amílcar Cabral, e esse facto está assinalado num monumento com o seu busto perto do mercado. Infelizmente a casa onde supostamente nasceu está actualmente deixada ao abandono.


Há campanhas para recuperar a cidade e voltar a dar-lhe o encanto e as cores vivas do antigamente. Parece tão fácil mudar tudo e afinal tão pouco está feito.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Raízes africanas

A Galeria 9arte (em Lisboa) vai inaugurar, no próximo dia 5 de Março, pelas 19H00, a Exposição Colectiva de Pintura “Roots”. Esta exposição apresenta trabalhos de cinco artistas plásticos, todos nascidos em África (Angola e Moçambique) e actualmente a viverem na Europa - Diogo Navarro, Ilídio Candja, João Murillo, Kheto Lualualí e Rui Jordão.

Esta exposição não pretende ser uma mostra de arte africana, mas sim um olhar sobre a forma como a sua influência se cruza com as memórias destes artistas. Em alguns casos o despertar da Pintura surgiu na Europa, influenciado, esse despertar, pelas correntes europeias contemporâneas. Esta confluência entre as raízes africanas e o meio europeu deu origem a percursos muito diversos.

Olhar um quadro de Ilídio Candja é descobrir através da mistura forte mas equilibrada das cores, um grafismo ancestral aliado a movimentos ritmicos. Já na obra de Kheto Lualualí a presença do quotidiano de Maputo é recriada a partir de personagens desenhados com as cores da terra. Na obra deste artista sente-se a sua forte afirmação africana. A obra de João Murillo é mais amadurecida e elaborada. Marcado pela sua experiência junto de artistas, com quem privou, como Bual e Cesariny. João Murillo projecta na tela a sua emotividade misturada com todo o desiquilibrio do processo criativo abstracto. Inquieto e irrequieto pinta histórias, todas elas densas na matéria com que as compõe. De África sentimos ao olhar o seu trabalho a imensidão do espaço e do tempo. Diogo Navarro, intuitivo e sensível, tem na sua obra como recorrente a paisagem. Lugares ou não lugares sempre desenhados de forma ténue, misteriosa, quase lânguida, sempre envoltos pelos céus amarelos e as cores quentes da terra africana. Na obra de Rui Jordão a calma aliada aos afectos e às memórias surgem ténues, como véus. Os recortes das figuras ou as manchas (estados de espírito?) denunciam o universo de uma vida construída. Há o rasar em pensamentos antigos, há mensagens, há o peso de uma sensibilidade aguda, há as cores como invenções de leveza.

Exposição patente até dia 13 de Abril de 2009.
Horário: 2ª a 6ªfeira, das 12H00 às 19H00; sábado por marcação.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Papoilas saltitantes

O futebol na Guiné-Bissau é sempre motivo de festa (quase tudo é motivo de festa por aqui). No entanto mais naturalmente se festejam as vitórias e os golos dos clubes portugueses do que se conhecem os resultados do campeonato guineense. Todos sabem os nomes dos jogadores de Portugal. Conhecem bem os falhanços do Nuno Gomes, os penteados do Miguel Veloso ou os voos para a piscina do Lisandro. Este fim de semana não foi excepção. Houve jogo grande e muita emoção. Muitos estão trajados a rigor. O vermelho vivo domina. Como já vem sendo habitual fomos espoliados e os beneficiados acabam por ser sempre os mesmos.

Deixo algumas imagens. São de Canhambaque como ontem. Ilustram bem o sentimento de que mesmo numa ilha esquecida no meio do nada o futebol português está bem presente. Não faço comentários à cor predominante…





Agora só falta dinamizar a sede e dar uma ajuda ao Sport Benfica e Bissau! Conto com o apoio dos cativos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Atraso no tempo

Aproveitando a vinda a Bissau de mais uma equipa de avaliação de Bruxelas (um dos motivos da minha ausência) fomos às ilhas. A altura não foi a melhor. O mês de Janeiro não costuma ser e este parece que foi ainda pior. Tivemos mais frio e mais vento. As temperaturas baixam e têm uma oscilação maior entre a mais alta e mais baixa. A média anda pelos 20º a 30º graus. Falar portanto em frio na Guiné é relativo. De qualquer maneira é a altura dos Kispos e Anorakes. Quem os tem faz questão de mostrar e tem piada.

Embora o mar não estivesse perfeito e a proibição de navegação para as canoas de passageiros estivesse interdita, lá conseguimos barco para as ilhas. Apanhámos ondas grandes e vento forte. Já estávamos à espera e fizemos uma paragem extra em Canhambaque até que o panorama melhorasse. Não foi uma perda de tempo. Muitos não tínhamos ainda visitado a ilha e assim conseguimos ir até à tabanca e aprender um pouco mais.





Canhambaque é conhecida por ser uma das ilhas Bijagós que mais preservou a sua cultura e portanto que se encontra num estado mais puro. As influências do continente não são tão fortes como noutros lugares e isso é fácil de se ver.

Visitámos uma aldeia e a escola. Vemos aquilo que imaginamos de uma aldeia perdida no tempo onde a civilização tem dificuldade em chegar. A pobreza é generalizada e as tradições revelam-se ainda muito fortes. Não há nada que não seja básico. À primeira vista há falta de tudo. As crianças não têm roupas lavadas, sem remendos ou buracos para vestir. Não têm brinquedos ou jogos como as crianças que conhecemos. No entanto nunca nos deixam de falar, fazer muitas perguntas e de transmitir sempre muita alegria e simpatia.








Há mundos diferentes e é impossível não ficarmos a pensar. Foi também a viagem de despedida de Alguém. Já nos havemos de encontrar.