segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Arquipélago

Estou de regresso a Bissau depois de nove dias nas ilhas. Já devia ter escrito antes mas a ausência prolongada tem alguma justificação. Como podem imaginar nem sempre é fácil arranjar tempo para tudo e torna-se ainda mais complicado escrever no meio da agitação do mercado financeiro da Guiné-Bissau e de toda a actividade bolsista na capital… De qualquer modo é sempre bom saber que alguns leitores (dois ou três…) assíduos aguardam por novo texto ou fotografias.

Voltando às ilhas. Quando se pensa na Guiné-Bissau a primeira ideia que nos vem à cabeça não é certamente a de ser um país para férias. Acontece que este país surpreende muita gente. Eu felizmente já sabia que havia muito mais para além do país pobre que todos imaginam. É verdade que ser o 3º país mais pobre do mundo segundo o Índice de Desenvolvimento das Nações Unidas não é o melhor cartão de visita e o turismo não ganha muito com isso. Acontece, porém, que quem tem tempo e vontade para ver Bissau e o resto do país com outros olhos, tem a oportunidade de conhecer e descobrir muito mais.

A semana nas ilhas foi muito boa. Férias a sério. Facilita viver aqui para organizar o programa. Com um arquipélago fantástico tão perto não fazia muito sentido estar a procurar mais longe. Decidimos ir uma semana para as ilhas. Junta-se os fim de semana e temos 9 dias para explorar os Bijagós. Tudo isto sem grandes preocupações de tempo ou percursos pré-programados. Assim sabe melhor. Viver uns dias mais em natureza e com paisagens e lugares extraordinários. Fomos a João Vieira, Cavalo, Poilão, Orango, Quéré e Caravela.


Houve muito descanso activo. Não foram dias de ficar estendido na toalha a queimar. Houve pesca quase todos os dias, dar a volta às próprias ilhas sempre com areia nos pés, conhecer o interior e as florestas tipo selva, passeios de bicicleta, ler bastante, comer bem, e muito mais. Deu para organizar jogos de futebol com as crianças Bijagós ou ensinar a jogar raquetes de praia.


As paisagens são como seria de esperar paradisíacas e para quem pensa na Guiné-Bissau apenas pelo que vê na televisão ou lê nos jornais, deve ser difícil imaginar que existam ilhas assim por aqui. Há praias de filme com extensões gigantes de areia a perder de vista. Foram dias sem contacto com o exterior, não há televisão, não há rede telemóvel e não há internet.

Todos os dias temos peixe fresco na mesa e quase sempre carpaccio de entrada. Comemos de tudo um pouco, barracuda, bica, corvina e mais. Pescámos também vários tubarões pequenos e um de mais de 40Kg. Ao contrário das últimas vezes desta vez consegui ter um pouco mais de sucesso. Deu para comer o que pesquei. Tivemos também churrascos na praia e a parte de comer com as mãos…


Há que estar preparado para as condições dos acampamentos pois não há hotéis de luxo mas não se dorme no chão e há duche. Em geral todas as pessoas que encontramos são simpáticas e somos muito bem recebidos. Não se faz comparações com outros mundos ou se pensa muito na falta de condições. As vantagens são muito maiores. Estive 9 dias sem saber de sapatos e andei sempre descalço ou de chinelos. Claro que cheguei a Bissau e andei alguns dias com os pés pretos e alguns cortes.




Estivemos com as tartarugas verdes em Poilão. Uma pequena ilha deserta onde as tartarugas verdes fazem a sua reprodução. Um dos motivos pelo qual o arquipélago é considerado reserva da biosfera da UNESCO. Não é todos os dias que podemos ver o nascimento de tartarugas no seu habitat. Partem as cascas dos ovos e começam a sair às centenas de buracos na areia. Estilo National Geographic mas ao vivo. Nascem e vão directas para o mar mas passam por cima dos nossos pés e podemos pegar nelas. Algumas precisam de ajudam pois ficam meio desnorteadas ou ficam presas nas rochas. É uma experiência diferente. Fomos duas vezes a Poilão. Na segunda ficámos a dormir com os guardas. Vi também hipopótamos em Orango mas ao contrário do que fiz com as tartarugas, optei por não me sentar em cima deles. Há também lagartos grandes, macacos e por todo o lado muitas aves, pelicanos, flamingos e outros que não sei o nome.




Foi um verdadeiro privilégio. A boa companhia também ajudou e deixo algumas fotografias pois não dá para descrever tudo.

http://www.orangohotel.com/

3 comentários:

joaquim disse...

Deve ter sido uma lindissima viagem!

Começei a minha comissão na Guiné com um mês em Bolama.

Não conheci outras ilhas, mas havia praias em Bolama de uma beleza incrivel.

Se a Guiné conseguir estabelizar a vida politica, julgo que o turismo poderá ser sem dúvidas uma óptima fonte de rendimentos.

Abraço
Joaquim Mexia Alves

Diogo disse...

Descrição fantástica. Verdadeiro Hemingway.

Hélder Valério disse...

Caro amigo, não seja tão modesto... São mais que 2 ou 3 que seguem o seu blogue, sempre cheio de informação útil e um "olhar" simpático para com a Guiné e as suas gentes!
Continue a rechear com textos e fotos, que nós vamos transportando o pensamento para essas paragens.
Só não vale é insistir nas ostras de Quinhamel porque isso é uma daquelas coisas que dá cá uma saudade!...
Um abraço
Hélder Sousa