domingo, 9 de agosto de 2009

Intervalo em terra seca

Algum tempo atrás, em intervalo de eleições e enquanto a época das chuvas na Guiné-Bissau não permite grandes deslocações, deu para ir uns dias aqui ao lado.

Primeiro Santiago depois Fogo. Duas ilhas e as diferenças são muitas.

A Praia soube melhor à terceira. Uns dias de sol e mergulhos com água transparente e muito peixe. Voltar a encontrar alguns amigos e conhecidos. Alguma cultura, maracujá amarelo grande como em João Vieira, leitura em dia e comer gelados no Árctica. Faltou o Prof. ou alguém dizer que ele também estava lá.

Desta vez consegui ir ao Tarrafal. É preciso cortar a ilha a meio, passar pela Assomada e outros lugares que mostram bem a pobreza interior da ilha. Não fui simplesmente pelo passeio mas porque queria visitar o campo de concentração ou campo da morte lenta como também era conhecido. Um pouco abandonado mas a história está lá. A exposição ajuda a contar. Foram 37 os prisioneiros políticos que morreram neste campo; os seus corpos só depois do 25 de Abril regressaram a Portugal.






Agora no Fogo. Uma ilha vulcão com 40 mil habitantes e que tem São Filipe como capital. Uma pequena simpática e íngreme cidade. No fundo um conjunto de casas amontoadas num penhasco sobre uma praia de areia muito preta e mar revolto. Os contrastes das cores vivas dos edifícios e dos azulejos terracota a decorar os sobrados dão alegria. A traça colonial ainda é forte. Vida mais calma e parece haver tempo para tudo. Na Tortuga comi os melhores bifes de atum cozinhados de várias maneiras pelo Roberto. Aqui não há infelizmente.

O vulcão é imponente. Tudo à volta é escuro e pedregoso. No caminho muita lava das várias erupções. Continua activo e é monitorizado diariamente. Começamos a subir na Chã da Caldeiras (a pequena povoação no sopé) até ao topo dos 2829 metros e foram quatro horas de pedra, areia e caminhos estreitos. Isolamento geral e sem turistas. Valeu a pena o esforço. Para recuperar um excelente peixe-serra. No fim visita à cooperativa vinícola onde se faz o conhecido vinho da ilha.

A razão de tantos cabo-verdianos loiros no Fogo vem do séc. XIX e tem um nome: Duque de Montrond.












E a nota histórica: “A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom do concelho do Tarrafal, na Ilha de Santiago, foi criada pelo Governo português do Estado Novo ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936. O Estado Novo, sob a capa da reorganização dos estabelecimentos prisionais, ao criar este campo pretende atingir dois objectivos ligados entre si: afastar da metrópole presos problemáticos, e, através das deliberadas más condições de encarceramento, enviar um sinal de que a repressão dos contestatários será levada ao extremo. Esta visão está claramente definida nos primeiros parágrafos do Decreto-Lei n.º 26 539, ao afirmar que serve para receber os presos políticos e sociais, sobre quem recai o dever de cumprir o desterro, aqueles que internados em outros estabelecimentos prisionais se mostram refractários à disciplina e ainda os elementos perniciosos para outros reclusos. Este diploma abrange também os condenados a pena maior por crimes praticados com fins políticos, os presos preventivos, e, por fim, os presos por crime de rebelião.”

2 comentários:

Nuno Caldeira da Silva disse...

O belo Cabo Verde

Miguel disse...

Agora na bela Lisboa. Amanhã outro continente...
Abraço,
Miguel