domingo, 13 de setembro de 2009

Momentos de glória

A travessia de férias terminou e estou de novo em Bissau. Foi um regresso ligeiramente antecipado de modo a assistir à tomada de posse do novo Presidente da Guiné-Bissau (e também por mais algumas razões).

A semana passada foi intensa em Bissau. A cidade preparou-se o melhor possível para receber a visita de muitos ilustres convidados. Procurou-se de várias maneiras remediar as falhas. A chuva intensa do último mês não tem poupado as estradas e nas vésperas do grande dia era possível ver funcionários procurando tapar os milhares de buracos e crateras das ruas da capital com cimento… bem como a terraplenar alguns dos acessos ao local escolhido para a realização da cerimónia. Também se cortava o capim e se tentava varrer um pouco da terra que faz confundir passeio com estrada. Alguns tapumes para disfarçar o indisfarçável. Mas houve um esforço e isso é de assinalar. Uma parte interior do aeroporto foi remodelada e pintada.

Malam Bacai Sanhá, do Partido Africano da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), tomou posse na terça-feira, 8 de Se(p)tembro, como novo Presidente da Guiné-Bissau. O momento solene decorreu no Estádio 24 de Setembro, em Bissau. Nas bancadas cerca 10 mil guineenses aguentaram estoicamente a forte chuva que não queria dar descanso e aplaudiram o seu novo líder, o Primeiro-Ministro, o candidato derrotado Kumba Yalá e os Chefes de Estado participantes.

Estiveram presentes os presidentes de Cabo Verde, Pedro Pires, Senegal, Abdoulaye Wade, Gâmbia, Yaya Jameh, Nigéria, Umaru Yar’Adua, Burkina Faso, Blaise Campaoré e República Árabe Saraui Democrática, Mohamed Abdelaziz, bem como o vice-presidente do Parlamento angolano, João Lourenço, e o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado. Outros convidados para a cerimónia foram o primeiro-ministro da República da Guiné (Conacri), Kobine Komara, o vice-primeiro-ministro timorense José Luís Guterres, o ministro moçambicano da Defesa, Filipe Nyusi, o duque de Bragança, D. Duarte e o Secretário-geral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o guineense Domingos Simões Pereira. As Nações Unidas fizeram-se representar pelo secretário-geral adjunto para os assuntos políticos, o eritreu Hailé Menkerios.

No centro do relvado foi preparada uma enorme tenda para receber estes e outros convidados. O protocolo de estado num esforço louvável organizou um evento que dificilmente sairia na perfeição. De qualquer forma tudo seria mais fácil se os convidados tivessem respeitado a sua hora de chegada e não viessem acompanhados de delegações com o dobro dos elementos previstos.



Em termos práticos saí de casa às 9h da manhã e respeitando o programa estabelecido ocupámos o nosso lugar na área reservada às missões diplomáticas. A tenda enquanto vazia primava pela arrumação. Havia espaços reservados para cada um dos grupos: deputados, antigos chefes de estado e primeiros-ministros, corpo diplomático e organizações internacionais e jornalistas.

Acontece que o enorme número de convidados rapidamente deu para perceber que esta organização seria insuficiente. A cerimónia deveria iniciar-se às 11h. Por volta das 13h00 ainda se aguardava a chegada de alguns dos Chefes de Estado convidados. Durante estas longas horas de demora e expectativa disputavam-se primeiras e segundas filas. Embaixadores de pé à espera de melhor colocação, convidados acomodando-se nos palanques, outros procurando avidamente uma garrafa de água após 4 ou 5 horas de espera. A salva de 21 tiros ficou-se pela metade… e bem espaçados. Não deixo no entanto de louvar o enorme esforço do protocolo de estado. Falta agora aprender com a experiência. Por volta das 16h regressei a casa.

O povo guineense que enchia quase por completo as bancadas do Estádio Nacional mostrou mais uma vez a sua enorme vontade de participação. Perante a chuva que não parava de cair não deixou de fazer a festa. Se bem que o programa tenha sido prejudicado pela chuva, poderia ter sido dado mais atenção ao lado cultural e artístico, aproveitando o momento para uma maior divulgação e espectáculo.

A unidade nacional, estabilidade, restauração da credibilidade do estado, a moralização, a transparência da vida pública, a reforma do sector de defesa e segurança, o combate sem tréguas à corrupção, ao narcotráfico e ao crime organizado constituíram os pontos chaves do discurso de investidura, como aliás não podia deixar de ser.

Nas palavras do Presidente empossado: "O dia de hoje constitui o virar de mais uma página da história do nosso povo e do país, marcado por momentos de glória".

Será desta que um presidente eleito democraticamente termina o seu mandato. Cabe aos guineenses (alguns) responder.



E como desta vez não estava com a minha máquina fotográfica, agradeço ao V. Montero (NU) a cedência das imagens.

1 comentário:

alecrim aos molhos disse...

Miguel, continuo muito atenta ás tuas palavras.
Estas não sei poquê emocionaram-me um pouco, talvés pela maneira tão positiva e respeitosa que as escreves.
Tal como tu,também eu e todos os que passamos por aí penso eu ,gostavamos que a Guiné-Bissau tivesse um grande e proveitoso futuro.
Tenho muitas saudades mas para já não está previsto ir.
A minha filha é que vai aí todo o mês de Outubro , trabalhar com a ONG Mujer e Madres.
Um grande abraço e feliz continuação.
C. H.